O B J E T O S   D E   M A T R I Z   D I G I T A L

Eis que o digital (do código, que se constitui como norma, não como matéria) está posto aqui atualizado diante de nós. O termo “dígito”, do latim digitus, tem a dupla acepção de “dedo” e de “algarismo”. O uso agora feito de tal palavra se aproveita de tal ambiguidade: aqui o dedo (a marca que ele deixa na produção de uma impressão digital) e o número (código de combinação de 0 e 1) têm suas funções imbricadas, são tratadas como se fossem uma mesma espécie de coisa.
Levando em conta a concepção pitagórica do número (como o “mínimo de extensão e mínimo de corpo”, como elemento básico formador de todas as coisas), é possível entender a ideia de código digital de forma mais abrangente. Pode-se ir além da ligação instantânea e restritiva que costumamos fazer entre o código digital e os “zeros” e “uns”.  Propõe-se aqui, expandindo a usabilidade terminológica, uma concepção do dígito codificado em “presenças” e “ausências”, sendo estas passíveis de serem representadas tanto por numerais como por outros modos de estabelecimento de contraposições binárias.
A bipolaridade de preto e branco (presença e não-presença) que constitui pictoricamente o desenho na obra, equivale funcionalmente ao do código numérico. A diferença está no fato de o código digital (como é usado costumeiramente nas tecnologias de armazenamento de informação) não forma imagens em si mesmo, é composto por pulsos elétricos não visíveis, só podendo revelar uma imagem pela decodificação de sua informação, através do processamento de seus dados pela máquina e por softwares. Diferentemente, o preto e branco da pintura já mostra a imagem imediatamente. A decodificação que se faz necessária é apenas a feita pela mente do receptor, observador da obra.
A concepção pré-tecnológica do termo “virtual” tem um significado ligeiramente diferente do que é comum nos usos cotidianos atuais. Virtual, para a filosofia, é a existência apenas em potência ou como faculdade, não atualizado concretamente. Já o virtual da informática é o da imaterialidade de algo que é formado por um código. Na obra proposta, o que se adota é uma virtualidade que se arquiteta por meio da combinação das duas noções de virtual citadas. Aqui, no lugar de um código numérico, surge uma série de digitais materiais que se afirmam pelas suas impressões na formação de uma obra também material. Neste caso, a virtualidade não está relacionada à imaterialidade do código, mas à vinculação dessa grande figura objetivamente existente (a obra em si) a um conceito que só é atingível pela imaginação. O que é virtual não é o painel, mas o seu vínculo com aquilo que está ali representado visualmente quando se vê a obra em sua totalidade. É estabelecido um laço com algo fora de sua existência. Está no limite entre realidade e ficção, no domínio da aparência.

V I D E O

Este trabalho conta com o apoio da Secretaria de Cultura de Fortaleza - SECULTFOR

por meio do Prêmio Leonilson de Artes Visuais

Objetos de Matriz Digital